Possível Diocese de Assú: quase 70 anos depois do escrito de Honório Ribeiro Dantas

A quase um mês do tricentenário da Paróquia de São João Batista de Assú/RN, resgatamos um artigo publicado por Honório Ribeiro Dantas, n’O Facho, em 13 de setembro de 1958, que apresentou uma proposta eclesial ao povo potiguar: a criação de novas dioceses para o fortalecimento da fé dos norte-rio-grandenses. No ano de 2024, o Arcebispo de Natal, Dom João Santos Cardoso, e o Bispo de Mossoró, Dom Francisco de Sales, anunciaram a criação de uma comissão de estudo para análise da possibilidade de duas futuras dioceses no Rio Grande do Norte. Hoje, o documento encontra-se em análise, como também  o trabalho da comissão de patrimônio e infraestrutura e da comissão de pastoral para o território das futuras dioceses, com implementação no Vale do Açu, na Região Salineira – com sede na cidade de Assú, tendo como patrono São João Batista – e na Região do Trairi – com sede em Santa Cruz, sob o patrocínio de Santa Rita de Cássia.

 Iniciando seu artigo citando que “muitas coisas seriam realizadas se acreditássemos menos no impossível”, conforme Malesherbes, Honório Ribeiro nos faz refletir sobre um sonho de tantas pessoas que está em processo de concretização. Assim, vê-se que, atualmente, a Paróquia de São João Batista vive um momento histórico por seu tricentenário e pelas expectativas para a realização do sonho de toda a região, vir a tornar-se uma diocese. Na fase de estudo da comissão, e sob orientação dos bispos das referidas dioceses, foi apresentada uma possível composição de 23 municípios (18 paróquias) para a futura área do território da potencial nova diocese com sede em Assú. O relatório de estudo está em avaliação das instâncias responsáveis da Igreja.

Quase 70 anos após a publicação da proposta do Senhor Honório Ribeiro Dantas, as Paróquias de São João Batista, em Assú/RN, e de Santa Rita de Cássia, em Santa Cruz/RN, vivem com feliz esperança, confiante na ação do Espírito Santo, a dinâmica proposta pela Igreja de novas futuras dioceses. Todo o processo vêm sendo acompanhado pelos Bispos da Arquidiocese de Natal, Dom João Santos Cardoso, e Diocese de Mossoró, Dom Francisco de Sales. 

Vejamos a seguir as palavras da publicação do historiador:

SUGESTÃO AOS NORTE-RIO-GRANDENSES

“Muitas coisas seriam realizadas se acreditássemos menos no impossível.” — Malesherbes

“Nas páginas de ‘O Monitor’,  em 21 de junho de 1958, tive a oportunidade de publicar um breve estudo sobre o avanço da Igreja no Brasil atual. Aquele texto deveria servir de introdução a este, mas o espaço limitado deste informativo não permite que ele seja incluído aqui.  

Com o pensamento em Deus, na honra da Igreja e no desenvolvimento do meu estado natal — ao qual sempre amei e procurei servir com lealdade e desprendimento —, apresento o que pretendo sugerir aos meus conterrâneos.  

Para total tranquilidade de consciência, declaro, desde já, que estou alinhado à Autoridade Eclesiástica, seguindo o preceito: Sentire cum Ecclesia (sentir com a Igreja). Tratei este assunto com o respeito e a prudência necessários. Como um simples leigo e humilde soldado de Cristo, tenho certeza de que não ultrapassei meus limites; pelo contrário, sinto-me exercendo um direito e um ato de caridade. Peço licença para entrar em área que não é minha, mas que venho com a melhor das intenções: a de prestar serviço.  

Olhando para o passado e tentando prever o futuro próximo, podemos vaticinar que, em poucos anos, será criada uma nova diocese no Rio Grande do Norte. Ela poderia ser sediada em Nova Cruz ou Macau, ou quem sabe em Açu ou Santa Cruz do Inharé.  

[…] um fator essencial: a vontade esclarecida e eficiente de um povo, apoiada pela bênção de Deus. A Diocese de Caicó tornou-se uma realidade esplêndida, trazendo benefícios reais para toda a região do Seridó.  

[…] Quem poderia esquecer o imenso bem que Dom José Delgado fez a Caicó? Ou a obra grandiosa de Dom Jaime Câmara em Mossoró? Seus sucessores têm se mostrado à altura, provando que a criação dessas dioceses foi oportuna e providencial. Então, por que não criar outras?

Mesmo sem ser profeta, posso assegurar que, em breve, veremos a criação de bispados em Nova Cruz, Macau, Açu ou Santa Cruz. Para que isso ocorra, é necessário apenas uma coisa: a vontade enérgica e persistente do povo, unida a um espírito de sacrifício e fé robusta. Assim, o “milagre” se consumará.  

É verdade que a Arquidiocese de Natal sofreria um impacto econômico inicial. Porém, quando se trata da salus gregis (o bem do rebanho), qualquer sacrifício financeiro é recompensado. A Igreja de Natal passou por perdas semelhantes quando Mossoró e Caicó foram criadas. No entanto, a fé e o espírito de renúncia de Dom Marcolino Dantas tornaram esses projetos possíveis, gerando hoje frutos doces e visíveis. Alguém ousaria negá-los?

Dom Marcolino continua sendo o mesmo de vinte anos atrás, apenas mais idoso e com a mobilidade reduzida. Seu auxiliar, Dom Eugênio Sales, realiza milagres de dinamismo; contudo, o trabalho pastoral no estado multiplicou-se dez vezes nos últimos anos. Não se deve dizer que o sacrifício de Dom Marcolino só era necessário para que o estado se tornasse uma província eclesiástica autônoma, e que agora essa razão não existe mais. Esse argumento é irrelevante diante do bem das almas, que é o que realmente importa, […]. O episcopado é serviço e missão.  

Não se alegue que uma nova diocese seria pequena demais ou sem clero. No Brasil, existem dioceses exíguas: Caruaru e Lorena possuem pouco mais de 5.100 km²; Oeiras tem  apenas oito paróquias e Caicó apenas nove; recentemente, a Santa Sé dividiu a província de São Paulo em cinco, criando a Arquidiocese de Aparecida a partir da pequena Diocese de Lorena. Portanto, o tamanho geográfico não é o problema. 

Com a criação de uma nova diocese, haveria um fortalecimento das paróquias e de movimentos como a Obra das Vocações, Congregações Marianas, Vicentinos, Ação Católica e Apostolado da Oração.  

Seguindo o movimento encabeçado por Roma — “Por um Mundo Melhor” —, pergunto: sem clero, como instruir e santificar o povo? Quem formará a juventude e os líderes apostólicos necessários? O pastor deve conhecer cada uma de suas ovelhas, como disse o Bom Pastor: ‘Para que todos sejam um’. Hoje, poucos se aproximam do vigário; é o vigário quem precisa ir até as casas para ser conhecido e amado. Sem esse contato, o pároco torna-se um estranho, e a consequência é o afastamento das massas, […].

‘Dividir bem para governar melhor’. Esta é a razão para mais uma diocese na Província, que, unida a Natal, Mossoró e Caicó, ajudaria a resolver os problemas comuns de nossa região.”

Garanhuns, 13 de setembro de 1958.

Ranyele Silva (Licenciada em Letras) / PASCOM

Pe. Wescley Melo – Editor

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